terça-feira, 23 de novembro de 2010

Lua CHEIA



Aquela Lua hipnotizou de um jeito,que só podia olhá-la. Refletindo seu branco cada vez mais espalhado pelo preto do mar. Ela ficava mais distante, mas sugava tudo para dentro de si. Assim como quem não se importa com ninguém.

Do outro lado havia um veleiro iluminado, que seguia para dentro e lentamente fazia sua rota, de não sei pra onde ir. Luzes vermelhas e amarelas, tão alegres que se via de muito longe. Ele terminou por sumir, sem nenhuma satisfação.

Por alguns instantes fiquei melhor, esqueci o que me fazia cansada, deixei-me ir junto com eles, junto com quem estava ao meu lado, segurando minha mão e livrando o meu corpo daquele vento frio. E fomos só nós quatro por um momento.

Então percebi que há como escapar. Há como acalmar-se por algum tempo. É só olhar pra cima com atenção. Só fechar os olhos e respirar fundo, que ficamos prontos para começar tudo de novo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010








É bem verdade que nos lembramos, às vezes, do que já passou bem longe. Não importa se as pessoas nos fizeram mal e deixaram uma marca estranha no nosso rosto ou no nosso peito. Em algum momento lembramos delas.

Se há saudade até do pouco que conhecemos, por que não haver do muito que soubemos, ou pensamos saber, de alguém que olhávamos com tanta atenção. Mesmo que tenha acabado já essa visão, lembramos de um andar, um sorriso, um jeito. Não somos nós quem mandamos nas imagens que se formam em nossas mentes, ela reconhece movimentos já vistos e compara-os com o que vemos em certos instantes.

E nos privar disso tudo é besteira. Quem existiu em nossas vidas, existirá para sempre.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro:Rocco, 1998.





" Ajoelhou-se trêmula junto da cama, pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar não é morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária , faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer um beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora da morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."

Clarice Lispector

Lá em cima



Aquele pássaro no último galho, distante, não se sente bem. Cheio de vertigens, dá pra ver. Longe dos outros não consegue voar alto.

Seu canto é como um choro, baixinho, numa nota só. Você está cansado, passarinho, posso ver. Porque sua casa já não é mais..., seu céu já não é mais..., suas flores já não são mais...

Mas se sua árvore cair, estou ainda aqui,mesmo que não consiga ajudar. Estou aqui só para olhar vocÊ chorar sem dizer nada. Porque o meu choro se parece com o seu, baixinho, numa nota só.

Também estou no alto, lá no último andar. E ninguém percebe. Essas coisas de gente são estranhas demais, passarinho. Eu queria era voar! Quem sabe me perdia por aí pra nunca mais me achar!


Gabriela Simões

sábado, 21 de agosto de 2010

Para um





Nessa dança toda nem tinha percebido. Para ele, é pouco mais que um envolver-se entre pernas e apertos. Pouco mais, nada tão além. Pensava nele como criança ainda, naquele faz tempo que achava engraçado.

Mas ele cresceu e esqueceu daquela outra imagem dela. Tomou para si a visão de um corpo pra se ter às escondidas, ter prazer e tomar com força. Uma coisa bruta que palavra não consegue relatar.

Foi estranho quando viu seus olhos grandes diferentes, cheios de uma vontade que não dizia nada. Nada que lhe interessasse. Porque já sabia que não havia caminho nenhum pra voltar à cena da infância, tão calma e inocente.

Perdeu a graça. Ficou escuro. Virou só carne. Passou o tempo. Deixou a marca. Jogou fora. Gastou com o vento. Esqueceu e fim. Deixa pra lá!

Gabriela Simões

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Falar não é fácil


Eu nunca soube dizer, asssim com palavras saídas da minha boca, tudo o que sinto. Minhas mesmo, só saem palavras das mãos, tão mudas e lentas, quase sem conseguir mostrar-se. Acho até engraçado, mas às vezes incomoda também.

E tenho um par tão doce como nunca consegui ser. Daqueles que se entregam sem medo,de olhos fechados, braços abertos e cuidados mil. Na verdade tenho muita inveja dele.

Não aprendi a dizer que posso aceitar o seu "eu te amo" encabulado, que posso cuidar como nunca fui cuidada, que posso afagar os seus cabelos como nunca me acariciaram, que posso fazer tudo novo pra aprender a ser doce de verdade. Ainda não aprendi...


Gabriela Simões

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O outro



A casa vazia mete um medo danado na gente. Você procura nos outros cÔmodos, chama e o eco do corredor parece maior, já que só você escuta. Os outros apartamentos parecem tão lotados e mais felizes do que o seu.

A comida não tem muita graça, a televisão é só para mudar os canais sem parar, o quarto é de uma imensidão terrível e a cama cresce a cada sono. A organização insistente dos objetos pede um irmão, pra ter com quem brigar, ao menos.

Solidão descontrola as coisas. O prumo está em acordar com o barulho da casa, chamar pra ficar junto, brigar para não lavar a louça, correr o dia inteiro e à noite encontrar alguém esperando no sofá.

Nem que sejam milhares as brigas e pazes, não nascemos para ficar desacompanhados. Nem que sejam dezenas os amores durante a vida, não nascemos para viver desacompanhados.

Quem vai esquentar nossos pés nos dias de chuva, abraçar o nosso corpo, desenhar sorrisos e lágrimas no nosso rosto pra que aprendamos a ser fortes, nos ensinar a caminhar em cada fase da vida, empurrar-nos para que aprendamos a voar sozinhos? QUEM?

São as nossas companhias que nos ensinam a viver. Para cada momento há uma delas que se encaixa perfeitamente. Para cada pontilhado há uma que pegue na nossa mão e nos ajude a cobrir para a letra ficar FIRME.

Gabriela Simões