sábado, 26 de dezembro de 2009

Homem não chora


Homem não chora
Nem por dor
Nem por amor
E antes que eu me esqueça
Nunca me passou pela cabeça
Lhe pedir perdão
E só porque eu estou aqui
Ajoelhado no chão
Com o coração na mão
Não quer dizer
Que tudo mudou
Que o tempo parou
Que você ganhou

Meu rosto vermelho e molhado
É só dos olhos pra fora
Todo mundo sabe
Que homem não chora
Esse meu rosto vermelho e molhado
É só dos olhos pra fora
Todo mundo sabe
Que homem não chora

Homem não chora
Nem por ter
Nem por perder
Lágrimas são água
Caem do meu queixo
E secam sem tocar o chão
E só porque você me viu
Cair em contradição
Dormindo em sua mão
Não vai fazer
A chuva passar
O mundo ficar
No mesmo lugar

Meu rosto vermelho e molhado...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Duas tatuagens


Num bar escuro e lotado
Os dois procuravam distração.
Ela havia partido o coração,
Ele já estava muito cansado.
Não que ela também não estivesse.

Acharam um no outro
Uma saída fácil pra esquecer
A dor que crescia como monstro
Dentro dos peitos prontos para se aquecer.
E cada um que mais quisesse.

Música, mãos e quadris.
Olhos, bocas, codinomes.
Tudo o que ela nunca quis.
Naquela noite dois insones...
Nada que não se esquecesse.

A noite acabou rápido,
Dormiram tranquilos e sóbrios.
Ela olhou no espelho seu rosto pálido,
Ele recolheu-se com seu sorriso e vazio próprios.
Antes que a-manhã chegasse.

E depois caminharam separados,
Um em cada calçada.
Conseguiram livrar-se dos cansaços
Sem deixar marca visível tatuada...
Mas, olhando bem, a tatuagem era coisa que na alma se enxergasse.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Presente-ausente


De costas para o Sol

Pé...depois...pé

Sem pressa pra esperar.

O Céu é de um laranja-tarde.


Os cabelos do Mar cresceram até as pedras

Gota...depois...gota

Sem pressa de acinzentar.

O som é frio e oco e seco. Som de vento vazio.


De frente para a Lua

Calcanhar...depois...calcanhar

Com pressa de voar.

As costas são asas pequenas, pequeNINInhas.


As horas são lentas

Segundo...depois...segundo

Com pressa de voltar.

Os espíritos são dois: um presente e um AUSENTE.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

... ... ...


Vi uma folha amarela cair da árvore.
No momento exato fotografei com os olhos
A leveza daquele instante
Que não rima com coisa alguma
Dada a sua característica ímpar

Imaginei como seria se pudesse
Presenciar todos os momentos
Dos momentos que desejo ver.
E só pensava nos amores,
Nas paisagens, nas conquistas.

Quando mirei minha visão para o alto
Vi uns olhos brilhantes como as folhas ainda presas
E parecia ser que, mais desesperadamente,
Era eles que tinha vontade de acompanhar
A todo instante... A todo instante...

Imaginei se fosse possível
Deles nunca mais largar
E vi não haver como,
Pois meu olhar não tem nada de brilho,
O meu é escuro como o fundo de mim.

domingo, 15 de novembro de 2009

Cachaça Mecânica


Vendeu seu terno
Seu relógio e sua alma
E até o santo
Ele vendeu com muita fé
Comprou fiado
Pra fazer sua mortalha
Tomou um gole de cachaça
E deu no pé...

Mariazinha
Ainda viu João no mato
Matando um gato
Prá vestir seu tamborim
E aquela tarde
Já bem tarde, comentava
Lá vai um homem
Se acabar até o fim...

João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...

Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...

Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

Vendeu seu terno
E até o santo
Comprou fiado
Tomou um gole
João no mato
Matando um gato
Naquela tarde
Lá vai o homem...

João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...

Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...

Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

sábado, 7 de novembro de 2009

Zé Ninguém na torre






Lá de cima da torre
Diz seus versos para o Céu,
Para as antenas e nuvens.
Grita com seu sorriso podre
Parecendo um réu
Implorando que vejam, como ele, aquelas imagens.

Moleque que rouba nem sempre é por mal.
Menino que pede nem sempre é marginal.
Moleque que cheira nem sempre procura a onda.
Menino malabarista nem sempre quer despistar a ronda.
Moleque no Capibaribe nem sempre acha divertido.
Menino todo sujo nem sempre é estilo seguido.

Por isso que ele grita
Bem lá do alto pra todo mundo ouvir,
Mas parece não adiantar que repita.
Ouve: - Conversa pra boi dormir!
É só mais um que agita
E ninguém olha pra cima porque a vida tem de seguir.

Não tem ninguém na torre, Zé.
Zé é ninguém na torre.

Zé Ninguém na torre